terça-feira, 25 de julho de 2017

RESENHAS MARGINAIS - O rio de todas as nossas dores.



TODOS OS RIOS TODAS AS DORES.
Resenha da obra: O rio de todas as nossas dores, de João Caetano do Nascimento.

O rio passa pelos relevos como o sentimento passa em nossas vidas. Aqui o autor com todo seu cuidado com a escrita, e seu estado de jornalista, nos mostra, a capacidade de se deixar impressionar, de se comover em uma grande emoção. Uma expressão de afeição, de admiração, mas que também caracterizado pela falta de alegria, pela melancolia, e um personagem com constantes crises do passado, e assim o livro se fez.
E o romance toma forma, e vai se desenrolando, ou melhor, vai correndo como as águas de um rio, e logo em suas primeiras páginas a vingança é um rio que passa frio, e cauteloso que age ou pensa com cautela, com prudência, como o personagem de um menino, de um pai e de uma família. Ali meu pai começou a morrer... Sou um vingador solitário. Aquele que carrega nas mãos o pássaro cruento da morte (p.12). E assim vamos para a obra, à leitura que tenho certeza que vai te prender caro leitor, o romance se passa em uma vila, essas ditas de periferia a Vila da Alegria, com todos os seus personagens e lugares, o trabalhador, o patrão, o policial, o bêbado, as meretrizes, o solitário, a grávida, as crianças e o rio, suas estradas e caminhos, as casas e os barracões, os bares e uma pensão, as mulheres da vida e os desocupados, assim vamos caminhar pelas redondezas de uma periferia, mas já quero lhes adiantar caros leitores, o romance se passa em uma vila de periferia, mas a escrita vai levar você leitor para dentro do livro, pois Nascimento produziu uma obra com um conjunto de todas as fases necessárias para a realização de sua obra, mostrando um local como ele é não deixando a desejar a nenhuma geografia, das vilas existentes, e as que você conhece leitor.
O autor nos traz um problema social, onde se inicia a obra, em: “Pássaro Cruento” – 1972, Brasil, São Paulo, Zona Leste, São Miguel Paulista. Junho 11 domingo. (p.15). Vamos descobrir juntos este problema social não pode aqui relatá-lo, pois é isso que aguçar a sua vontade de ler esta obra, e aqui é o meu dever, fazer com que você caro leitor tenha a vontade imediata de ler. As pessoas estão aglomeradas na entrada principal daquela pequena vila de trinta e três casas, a maioria em construção... Os policiais fecham o cerco, preparam o ataque... (p.16). Todas essas conjunturas se passam nas periferias, e Nascimento soube colocá-las, com  uma característica ou particularidade de que é hábil, e tem capacidade com as letras, discorreu o romance, não deixando a desejar por nenhuma obra de nossa literatura, teve a destreza, agilidade e soube passar para o papel, aquilo que é de propriedade ou qualidade, dos personagens de uma vila.
Vamos então para a obra, a qual eu gostei muito, e já tenho a certeza que vocês gostarão também, referente a obra ela nos traz assuntos do nosso cotidiano, envolto aquilo sobre o que se conversa, no portão de casa, na rua, na fábrica, na escola, nos bares e até nos bordeis, a situação do País, e assim o romance vai se desenrolando, entre vingança, amor e ódio.
O lugar um lugarejo tratado pelo autor sempre no pejorativo, não sei se para dar mais qualidade, ao romance, ou para que o leitor vivencie o lugar, e sinta nas palavras como o poder público trata as vilas ditas periferias. Esta Vila fede a merda. Aqui o lugar é pobre (p.21), mas poderão observar que esse tratamento é feito, exatamente porque não chega estruturas ambientais, saneamento básico, urbanização, e o governo não investem na área, pois prefere investir no que é do lucro, aqui o poder fala mais alto, por causa de uma indústria instalada ao redor da Vila, a qual tem como um presidente, proprietário ditador, tirano e autoritário... Tirando a fábrica, não tem mais nada de trabalho aqui, e aviso esses bostas não gosta de contratar gente da vila...(p.22). Encontramos também todo aquele jeitinho brasileiro, nos relatos da obra, e mais ainda o autor nos remete aos duros anos de chumbo da não tão distante ditadura, que o país sofreu por 50 bons anos, ou melhor, piores anos.
O autor coloca em sua história a dupla personalidade, para não trazer a tona, a revolta de um passado, para prosseguir naquilo que às vezes se torna obcecado pelo ser humano, e que nada lhe impediria de realizar tal façanha, - Vicente ou Luís Silva. Vicente cede lugar ao diplomata Luis Silva... (p.37), descubra caro leitor e viaje nessa instigante aventura, que por vezes pensei é um romance policial, ou uma história de amor entre, Luis Silva e Alice, mas não a do país das maravilhas, ao menos aqui não, mas que essa Alice tinha muitos sonhos isso tinha, e lutou por eles. O encontro com a amizade de um menino, com a gentileza de uma moça, com a compreensão da dona de uma pensão e seus hóspedes, com toda uma vizinhança, mas com a alma de um profissional da vingança (p.47), e quando se quer praticar em nome próprio um ato lesivo, não se mede as conseqüências, e enfrentam todas as barreiras, e como o autor nos mostra no livro, para a vingança o personagem vai de clique em clique registra tudo.
Para instigar mais ainda a sua vontade, caro leitor de ler o livro, a aventura decorre sobre um empresário, uma ex-secretária, um vingador, e os policiais, não é fascinante, tudo isso se torna um rio, de lágrima, sangue e suor. Tem dor sim como o próprio autor intitulou o livro, mas tem também alegria, não seria possível que uma Vila chamada Vila da Alegria, fosse só dor, sofrimento e tristeza, mas caro leitor eu em particularmente achei a obra um tanto triste, mas passando as vistas nela, percebi que o autor, mesmo com toda pobreza da Vila das pessoas, consegue colocar um toque de humor na história, quando menciona as meninas da pensão. E o rio vai correndo e a história também, entre tentativas de vinganças, regularização de lote, lutas sindicais, conquistas de moradores. Começou por exigir a regularização do traçado das ruas e a colocação de guias e sarjetas, (p.65), o rio acompanha todo o desenrolar dos problemas sociais da Vila. O rio segue seu trajeto, sem olhar para os lados, é assim que eu vejo o rio nessa história.
Esse rio, ou melhor, essa história, nos traz também um velho ditado: “Deixe que o tempo, se encarrega das coisas”, aqui eu vejo como deixa o rio encarregar das coisas, e percebo ainda mais ditados populares como, o que se faz aqui, aqui se paga, isso o autor colocou muito bem, e vocês leitores irão perceber.
Para finalizar está obra, quero mencionar aqui a estética do livro, gostei do estilo que o escritor organizou os capítulos do livro, em forma de um cronograma dos dias da semana. E em destaque.
ENFIM, O DIA SEGUINTE

20 DE JUNHO DE 2000 (TERÇA-FEIRA). (p.215), e ainda prossegue com mais dois capítulos que encerram o livro, e conclui tudo aquilo que quis colocar no romance, na história de um lugar, de gente humilde, que sofrem com os descasos dos governantes,os donos ditos do poder sempre mandando, fazendo e desfazendo, a impunidade presente a cada momento, a cada luta de um povo, que só quer a liberdade, a felicidade o direito de ir e vir, tudo isso o autor soube tratar, dando vida aos personagens em cada capítulo do livro, aonde vai desenrolando as façanhas dos personagens, sem que puna alguém, sem que julgue, quem quer que seja no livro o autor só trata de uma questão a justiça, nem mesmo os merecedores de pena ou punição que se inflige a outrem, nem mesmo o vingador, pois o rio sempre corre para o mar, e não tem mar que não tenha fim. Pois o tempo se encarrega de curar todos os rios todas as dores. Boa leitura!

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