sábado, 28 de agosto de 2010

O EFEITO DOS CALDOS

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O EFEITO DOS CALDOS
Por: Germano Gonçalves.*

Ao final da tarde e começo da noite esse era o momento em que Antenor costumava chegar à casa do norte, cliente quase que assíduo do restaurante, entrava com seus passos lentos como não querendo incomodar ninguém procurava um lugar, uma mesa disponível e ali se acomodava, olhava para os cantos a procura de um garçom ou garçonete para fazer seu tradicional pedido, pois o que seu Antenor mais apreciava eram os caldos de diversas iguarias como: O caldo de mocotó, camarão, piranha, caldo de feijão e o caldo verde.
Ali sentado em volta da mesa apreciava todos os caldos um por um, e às vezes repetia um deles e por ali ficava até chegada a hora em que estava satisfeito e acionava o garçom para que pudesse pagar a conta.
E assim era a rotina de seu Antenor junto ao restaurante e casa do norte, saborear seus caldos prediletos.
Antenor vinha sempre sozinho, mas quando de uma tarde chegou acompanhado de uma senhora, Dona Judith, e não ficou somente naquela tarde tornou-se um hábito.
No começo acompanhado com sua senhora ele sempre fazia os pedidos e a mulher foi tomando gosto pelos caldos. E os dias, meses foram se passando, como também passou a ter a vontade de Dona Judith escolher os caldos, que em uma tarde chegando ao restaurante os dois se acomodaram em uma mesa e logo foi chamada a garçonete para atendê-los, aproximando do casal a garçonete toda educada lhes disse:
- Pois não, no que posso servi-los.
O homem a olhou de cima a baixo, observando-a com um bloco de pedido em uma das mãos e a outra segurando uma caneta, já com o pensamento de que ele pediria um caldo, só restando saber qual, mas educadamente esperando o homem fazer o pedido. Foi quando ele disse:
- Dois caldos de mocotó.
Imediatamente a mulher retrucou, dizendo:
- Eu não quero caldo de mocotó.
O homem abriu os braços e como quem indignado disse:
- Então, qual vai querer. Vai pedi aí já não estou valendo nada mesmo.
A mulher olhando para garçonete disse:
- Eu quero um caldo de camarão. Antes mesmo que a mulher falasse qualquer coisa a mais, seu Antenor já foi dando as ordens.
- Então traga um caldo de mocotó e um de camarão.
A garçonete anotou o pedido e pedindo licença se retirou.
E ali permaneceram os dois saboreando os caldos e foram mais e mais pedidos e assim era dia após dia.
Já era de costume ver os dois anciões ali saboreando os caldos, e era somente os caldos dificilmente pediam algo diferente.
Quando de um final de tarde, mês de dezembro depois de muitas vinda com a esposa o ano inteiro, lá vem seu Antenor subindo os degraus que vão dar para a entrada do restaurante chega como sempre, como não se quer nada, mas a garçonete já imagina iria pedir caldo e se aproxima. O homem faz o pedido de costume, mas um fato chama a atenção da garçonete; ele esta sozinho.
A garçonete fica a pensar: “Logo nessa época, mês de natal ele só”, mas anota o pedido e vai providenciá-lo, após alguns momentos depois de apreciar seus tradicionais caldos o homem chama a garçonete e lhe pede a conta.
Antenor se levanta e dirigi ao caixa, quando a garçonete se aproxima e lhe faz uma pergunta.
- E sua patroa não veio hoje?
Antenor segurando o dinheiro na mão, com uma feição seria responde:
- Eu a matei!
A garçonete repentinamente imaginando que as palavras do homem eram irônicas disse:
- O senhor a matou, porque fez isso?
E sem pestanejar o homem responde:
- Mulher, enche o saco da gente, só atrapalha, eu a matei.
A garçonete fica sem ação e assunto, deixando o homem que vai até o caixa e faz o devido pagamento do que consumiu, assim que ele fez o pagamento e dirigia-se a saída, a garçonete lhe faz mais uma pergunta, por se tratar de mês de natal confraternização, festa e tudo o mais pergunta:
- E o natal? O senhor vai viajar ou vai permanecer por aqui, onde vai passar o natal?
Mais uma vez sem titubear o home responde:
- Na cadeia, só estou esperando eles virem me buscar, eu não vou lá.
E assim seu Antenor saiu deixando uma pergunta no ar e a garçonete a pensar.

*Germano Gonçalves escritor também é garçom de um restaurante de comidas típicas do norte do país.

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